sábado, 25 de dezembro de 2010

Continuação...

             Exatamente como nos comentários que ouviu, o Diretor fez um gesto e as filas moveram-se. Um por um os alunos inclinavam a cabeça diante dele, cumprimentando-o. Nessa formalidade e no comportamento dos estudantes, Andréa pode observar o rigor da disciplina daquele colégio. Silenciosamente, seguiram para as salas de aula, conforme as séries.
            A preleção do professor de Inglês foi interrompida várias vezes pela aparição da mulher que ela vira na secretaria, quando se matriculara. Primeiro para advertir a respeito do prazo de comparecerem de uniformes. Dessa data estipulada em diante o aluno que não estivesse uniformizado não assistiria aula, caso houvesse qualquer contratempo deveriam trazer justificação assinada pelos pais. Andréa indignou-se com as exigências, mas os avisos, as comunicações que pareciam inúteis e desnecessárias, a bem da verdade eram indispensáveis para se ter noção do esquema didático e do regime escolar daquele estabelecimento. O problema do uniforme é que não soava bem. Uma jovem ao manifestar-se num comentário de evidente contrariedade provou que ninguém concordava com aquele regulamento.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Dois

             Passou sexta-feira, sábado e domingo. Chegou o primeiro dia de aula:
            A sineta repercutiu por toda área com insistência, exigindo silêncio. Os alunos agruparam-se em filas paralelas no pátio.
            Do alto de um palanque, numa pose imponente, própria de egocêntrico, o Diretor observava todos.
            Andréa ouviu alguém reclamar atrás de si, enquanto os outros acompanhavam com risadinhas abafadas:
            - Que absurdo! Só aqui essa palhaçada de fazer fila ainda continua! Pensei que a coisa pelo menos este ano fosse mudar!
            - Que nada! – comentou outro em surdina.
            - Isto aqui não evolui na base da comunicação! Que merda! Já falei pro meu velho que o ano que vem não volto aqui nem amarrado. Fila! Onde já se viu? Uniforme! Até parecemos manada na pastura! Nos outros colégios dá sinal e todos se dirigem calmos “pros” seus devidos lugares, sem precisar obedecer regulamento algum. Que merda, mesmo! Isto aqui nunca vai passar de “Grupinho”, dirigido por retrógrados! É complexo de superioridade, veja lá o velho, parece Hitler deliciando-se com a multidão! Esperando que ergamos os braços para saudá-lo. Se der chance vai ver como ele muda o modo de cumprimentar! Parece mesmo um urubu no toco! Agora ele faz um gesto e os cordeirinhos começam a andar. Sem esquecer-se de mover a cabeça feito burrinho de presépio quando passar por ele.

Primeiro Capítulo

            Os propósitos de Andréa eram idealistas e honestos. Estava ali por um princípio moral e construtivo, de cultura, de aprimoramento intelectual.
            O pai matriculara-a naquele Instituto de Ensino para que ela concluísse o ciclo Colegial que havia sido interrompido.
            Andréa tinha ideais e pretendia firmar-se numa profissão definida e segura. Entretanto não conseguia decidir que carreira iria abraçar. As sugestões dos pais quase nunca coincidiam com seus interesses, e ela mais perdia tempo fazendo poesias, do que a sonhar com títulos de Doutora em Odontologia, Medicina, Direito, que ilustrariam seu nome.
            Na primeira manhã em que estivera no Instituto de Ensino, logo que a mandaram entrar no gabinete onde o pai conversava com o diretor a respeito do seu ingresso, pudera observar uma mulher que, por trás de uma escrivaninha, conferia fichários. Pudera observar, porque a outra, do lugar onde se encontrava não notara a presença dela.
            Andréa fizera-se de absorta, olhar vagando disfarçadamente pela sala, para recair sobre a figura que lhe despertara atenção. Ela deveria ser da secretaria ou fazer parte da Diretoria do Colégio.
            Andréa não precisava analisar a razão por que olhava para ela, pois tudo se resumia no fato de que estava vendo uma mulher muito bonita.
            Em dado momento ela arrepanhara uma porção de pastas e deixara a sala. Andréa seguira-a com o olhar.
            A voz do Diretor e a mão que pousou em seu ombro tiraram-na da abstração, percebendo que a entrevista fora encerrada com a advertência que o Diretor fizera:
            - Então não se esqueça de trazer as fotografias. As aulas começam segunda-feira, dia dois de março.

Sê Limpo


  • "Senhor, se Tu quiseres, bem podes limpar-me"! Eu creio que és Aquele que todos esperamos. Dize: quero!...
As lágrimas aljofraram pela vez primeira nos olhos, depois de muitos anos. A voz se estrangulou na garganta entumecida.
  • "Quero: Sê limpo"!
um estertor nervoso sacudira-lhe as fibras. Um imenso descontrole tomou-lhe o organismo alquebrado.
Desejou gritar; não pôde fazê-lo.
Experimentava a sensação de uma transformação geral e violenta.
Estupefato, sem o domínio da razão, àquela hora, acompanhava, atônito, a renovação dos tecidos febris e apodrecidos que se operava celeremente